No mundo contemporanêo
No mundo contemporâneo e globalizado em que vivemos, a liberdade do indivíduo e sua autonomia quase não existem.
Nossa identidade, nossa existência, nossos direitos naturais estão sendo podados e controlados pelo sistema.
Se nos exercemos escolhas elas serão subjetivas e homogêneas, não praticamos a subjetividade, quer dizer, não praticamos as possibilidades da nossa liberdade em relação às crenças, tradição e ética.
Após a II Guerra Mundial experimentamos uma sensível mudança dos hábitos e costumes, como, por exemplo, o trabalho da mulher, que gradativamente iniciou a conquista da sua independência.
Houve então uma erosão da legitimidade da individualidade e da autoridade- inexistência de hierarquia- perda de valores, incapacidade de decidir, escala de valores não definidos.
Vivemos hoje o reflexo de tudo isso- alienação , publicidade, consumo- arrogância da ignorância.
Vivemos a rotinizacão do novo. Conseqüências??? Não sabemos o que vai acontecer. A tecnologia, o novo não é mais interessante. Não existe mais algo que marque o tempo; o tempo se diluiu...
Pergunto: em que nós prestamos atenção?
O senso comum descarta o real, vive a realidade e a fragmenta, somos cegos ao verdadeiro conceito do que e real.
Para podermos mudar esse quadro, temos, primeiramente, de nos situar na história, no contemporâneo, se torna essencial estudar a historia, para não sermos contemporâneo de nós mesmos (acaba com a história), viverem a diferença, sofrer, ter autenticidade, ser ético.
O artista tem a percepção da mudança, ele vê o que nós não percebemos, isto é: o movimento, o tempo, a passagem do tempo; tenta representar o tempo (o real) como objeto artístico, materializa portanto a sua percepção.
Para Bérgson, a linguagem é a única forma de representação da intuição, para organização do pensamento artístico.
Quando não consegue encontrar as palavras para configurar a imagem, ele tem que se opor a essa linguagem, transgredir, dar soluções imagéticas.
O artista enfrenta essa dificuldade porque não encontra o fluxo da continuidade (percepções- temporaneidade das palavras). Esse fluxo , só é percebido na memória, na evolução da história, processo consciente da memória do antepassado, traz em si muito mais que percebemos, ele tem uma temporização ( núcleo da nossa subjetividade).
Segundo Proust, talvez assim, se pudermos captar um ponto do tempo, tudo que esta no tempo, na articulação do tempo, entrará em contato com a realidade em si.
Por meio de este descortinar de idéias, conflitos, olhares para o real, criamos o projeto- materialização do real, em busca de soluções, de liberdade, de prática da subjetividade, sermos nós mesmos.
Digo isso, porque além de exercemos a percepção exercerá também a memória (a mediação de algo, para algo conhecido). A cada percepção é liberadas na nossa memória um contexto envolvendo-nos a um reconhecimento de mundo, contato do presente , em contato com o passado (ato constituído)- adequação das lembranças para as percepções; materialização da realidade.
Quanto mais lembranças, mais seremos um individuo presente; se não, apenas seremos sonhador, um individuo “sonhante”, fora da realidade; totalmente desligado de si mesmo. Forma-se então uma tríade:
----------passado (memória)
----------percepções (presente)
----------realidade (real)
Se a memória e as lembranças são ativadas quando se submete ao presente (percepções), descortina para o sujeito um campo mais vasto de realidade, um ritmo mais profundo com a vida, com o real.
A arte salva o tempo perdido? A intensidade tem que ser grande para salvar. Mas salva a realidade do tempo. O tempo tudo devora.
A arte tem que estar refletindo a vida , essa nossa realidade, exercer nossa identidade, nossa existência nesse fluxo do tempo, com contexto político-social, de mostrar ao senso comum, um mundo que eles não vêem, pelo menos despertar dúvidas, despertar pensamentos, questionamentos; de imaginar uma totalidade de leitura visual, que antecipa o conceito arbitrário da linguagem. Ter o mesmo ponto de vista em relação ao universo e multiplicar o mesmo ponto de vista para perceber a sua. Paulo Freire disse: “Quanto mais leitura de mundo, maior e a leitura individual”.; quer dizer, a narração é essencial para buscar o tempo, a memória, o tempo presente.
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