Da passagem
Dois trabalhos muito opostos. É o que pensamos ao
ver a exposição “Da Passagem”,
por Murilo Kammer, composta por fotografias derivadas de
dois trabalhos em vídeo. Apesar de dividirem um formato
(vídeo/foto), é o contraste entre as duas
obras que primeiramente nos chama a atenção.
Já em “Suportes”, vídeo apresentado
por Murilo, a luz é intensa, a presença humana
não se faz senão fugidiça, quase imperceptível
e o silêncio é total. O artista realizou estas
imagens ao percorrer com sua câmera as dependências
de uma unidade da FEBEM, desenhando o espaço ao registrar
os suportes da passagem humana – paredes, portas,
grades, chão. Murilo deseja suspender o espaço:
as marcas do cotidiano humano inscritas nos suportes são
mergulhadas na luz até deixarem de ser, até
sua supressão. Encontramo-nos então num espaço
zero, esvaziado, suspenso. A meio caminho entre o concreto
e o luminoso, é um espaço à espera,
potencial e indeterminado, em silêncio. As fotos reforçam
o efeito de suspensão, uma vez que replicam-no, num
efeito ao quadrado. Isolando fragmentos dos vídeos,
reafirmam que a suspensão implica uma eleição,
ou seja, uma escolha daquilo que é digno de ser salvo.
Priscila Sacchettin