Em seu novo trabalho o artista Henri de Souza,
garimpa na natureza dos arquétipos o compromisso
com o símbolo-mítico da ancestralidade humana,
e é com este remendo na fenda entre os fenômenos
psicológicos (tão bem desenvolvidos por Taine,
Hume; em seu Tratado da Natureza Humana) que a tela hospeda
com uma acuidade própria um vislumbre da razão.
As desinências plásticas garantem o momento
de pluralidade da dúvida entre humanizar a ruptura
ou viver o pesar da separação. O elemento
essencial do fluxo da vida ocupa o seu lugar determinado;
o que se trava, no entanto, não é apenas a
luta pela expressão artística (palco de grande
batalha), mas o ato revelado entre a idéia sui-generis
e o corpus-mito-poético: o gestual dos traços
fortes e seus movimentos precisos de concepção
e ruptura na fenda criativa e selvagem.
O que se abstrai dessa concepção seria um
testamento desta ruptura do sentimento no momento em que
ela é posta em ato. O que se expressa, a própria
nudez de uma palavra muda eternizada na obra artística.
Do desejo do encontro do artista com sua linguagem, apoiado
em uma promessa, nasce à possibilidade de aceitar
o risco do vazio, da queda, da separação da
imagem de si-próprio. Esse é o preço
a ser pago para que ocorra um verdadeiro encontro.
É também possível identificar uma
substancialidade de fenômeno-de-osmose nos materiais
utilizados, que tem por alvo aproximar a arte e a vida.
O carvão, os materiais orgânicos, como o mel,
adubo de casca de coco, sementes, areia, e os materiais
sintéticos, traduzem a seqüência de bases
de uma genética metafórica da natureza.
-“Não olhes para mim...”, é o
que seu trabalho murmura no afã de desintoxicar o
comum, portanto, para que não se cometa nenhum pecado,
leve o olhar a um passeio pelos limites da adversidade,
presumido pela perspectiva do orgânico e psíquico.
Por fim, tal como a reminiscência dos ancestrais,
as camadas de imagens e elementos tentam paginar e contar
uma história, se não for a do próprio
sujeito que a olha, ao menos da palavra há muito
mumificada pelas idéias e substâncias.
Robson Chacon