EXPOSIÇÃO DO ARTISTA WILSON
TAFNER
de 25 de outubro a 23 de novembro
Perspectivas: recortes de um adolescer
O branco e preto e o ocre dão o tom da exposição
Perspectivas: recortes de um adolescer, do artista plástico Wilson
Tafner. Estão ali desenhos em carvão e objetos que se integram
não só pelo tema da infância perdida e da violência
urbana. Eles também estabelecem um ambiente que discute a marginalidade
de jovens e adolescentes.
Embora o assunto seja de gravidade inegável, não pode – nem
deve – se sobrepor ao trabalho de Tafner. O desafio do artista é o
de motivar a observação atenta de suas criações
para refletir sobre uma dramática questão social, que leva
a ter uma geração perdida nos corredores da Febem.
Os desenhos em carvão funcionam como uma síntese do conjunto.
Há uma mãe pobre, provavelmente chefe de uma família
desestruturada, com uma criança para a qual há dois grandes
caminhos possíveis: a infância, com pipas, futebol e bolinhas
de gude; ou a realidade do tráfico de drogas, da prostituição
e da marginalidade.
As jornadas estão presentes na instalação que convida
o público a participar de uma escolha ao oferecer a opção
de construir um muro com nomes de jovens delinqüentes ou de escrever
uma mensagem numa lousa. Estão aí as perspectivas da sociedade
brasileira: o muro da prisão ou as primeiras letras da educação.
Corpos modelados no chão, na posição conhecida como “Valete” entre
os jovens infratores, sempre deitados do lado oposto a quem está ao
seu lado, de modo que cabeças e pés se alternam no solo,
reforçam a atmosfera opressiva. Eles têm visões diferentes,
embora limitadas pelo ambiente, cercado por notícias de jornais
sobre atos de violência cometidos dentro da Febem.
Aliás, distintas jornadas existenciais são também
sugeridas por uma espécie de roda da fortuna, objeto de parede
em que numerosos elementos que indicam as possibilidades existenciais
de boa parcela dos jovens brasileiros são colocadas à mostra,
como o assalto com armas, a mendicância e o malabarismo em faróis.
O relevo com a barriga de uma mulher grávida aprisionada numa gaiola,
o prato luxuoso que oferece a refeição de uma lata de cola
de sapateiro com pedras de crack e fotos realizadas por Tafner de jovens
marcados pela violência ou felizes por receber refeições
colocadas sobre uma tela atrás de uma grade completam a exposição.
O conjunto impressiona pelo seu valor plástico e por estar repleto
de vivência do tema. O artista não é mais um criador
que se debruça com um olhar complacente e assistencialista sobre
as práticas dos menores infratores. Pelo contrário, ele
pratica a arte a partir do que vivencia e conhece.
Promotor de Justiça da Infância e da Juventude, ele enfocou
o tema da violência contra os jovens na exposição
Ninguém nasce bandido, de 2005, na própria Casa Galeria,
com curadoria de Carmen Aranha. A sua perspectiva, desde então, é discutir
se pode haver um sentimento de esperança na realidade que ele conhece
tão bem.
Se uma perspectiva é, nas artes visuais, uma técnica de
representação tridimensional que dá ilusão
de espessura e profundidade, também é a chance de discutir
a falta de oportunidade para pessoas sem passado, presente ou futuro,
que, em sua maioria, caminham para engordar os números nacionais
de marginalidade e violência.
Nesse aspecto, a exposição se ergue como um ato de protesto
plasticamente construído e um alerta visualmente imponente. Choca
na sua denúncia e interroga em sua temática. Trata das crianças
que o país perde e dá um passo importante para que, cada
vez mais, Wilson Tafner seja um artista que atua como Promotor – e
não o inverso.
Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto
de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de
Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).